Choque de realidades: quando uma viagem me faz pensar no Direito, no discurso e na condição dos movimentos sociais

O autor é um dos caras mais inteligentes com que tive oportunidade de dialogar e colaborar. Em que pese ser acometido do mal da juventude – ser jovem! -, sua maturidade intelectual é eloquente. Suas experiências sensíveis caminham pari passu às dores do mundo. Aqui reproduzo texto colhido do seu blog: Fazendo Direito – um dos links inevitáveis daqueles que visitam o vertente.

Deixo vocês com Douglas. Mais não precisa ser dito.

"Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, descobrindo-se, com eles sofrem mas, sobretudo, com eles lutam" - Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

“Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, descobrindo-se,
com eles sofrem mas, sobretudo, com eles lutam” – Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido


Douglas Pinheiro Bezerra

Hoje me deparei com uma das experiências mais fabulosas que a vida pôde me proporcionar. O que deveria ser um trabalho de pesquisa/extensão/estágio tomou a proporção de um grande momento permanente de fraternidade, com direito a feijoada, cachaça, risos, brincadeiras, fotos espontâneas, indignação, revolta, preocupação, esperança. Criei laços de amizade, em um único dia, que me deram a impressão de já existirem há tempos: talvez seja a explosão de empatia que se passa pela minha cabeça e espírito; talvez seja a emoção impiedosa que tomou conta dos meus pensamentos por me ver inserido em algo tão complexo e, ao mesmo tempo, tão singelo.

No presente dia (e que esse presente se transmute em eternidade!), eu e mais sete colegas que “fazem isso sabe-se lá por que” – estereótipos que sofremos na faculdade, resolvemos pegar a estrada e nos aventurarmos numa desventura de realidades chocantes que nos reservava requintes de beleza ontológica. Adentrar numa propriedade rural absurdamente extensa, cerca após cerca, encarar a vegetação agredida pela alta temperatura à qual não estou acostumado e me defrontar com uma comunidade de pequenas casas, timidamente agrupadas, recebendo, em troca, olhares curiosos de pessoas que nunca viu a maioria de nós, mas que nos aguardavam, como quem aguarda a chegada do profeta, foi uma experiência inevitavelmente perturbadora.

“Os adEvogados chegaram”: pude ler nos lábios de um dos que nos observavam. Todos tímidos, descemos de nossos veículos com ar-condicionado, efetivamos alguns apertos de mãos, beijos… demos uma primeira examinada séria ao nosso redor. Lá no quintal da casa onde havia o agrupamento de moradores, sob a sombra falha de uma grande árvore, fomos convidados a nos juntar à reunião da comunidade. Acomodados e, de certa forma, incomodados com o zelo desnecessário com o nosso conforto, organizados em círculo, continuamos sendo o centro das atenções, mas, em compensação, tivemos a nossa chance de encarar os rostos de cada um ali presente, ver seus traços corporais, seus gestos, seus olhares, suas vestimentas, as crianças se escondendo assustadas com os estranhos que se achegavam. Começam as apresentações: eu me dou conta de que algo nunca antes sentido me proporciona um “estado de choques”.

Choque de realidades, por ver e sentir quem são aquelas pessoas das quais trata aquela papelada toda que começo a revirar nas minhas atividades acadêmicas. Choque intersubjetivo, por saber que a abstração fria se fez aquecida por um caloroso momento de interação e que em nós é depositada uma confiança inimaginável de cada pedacinho de humanidade que se faz ali presente. Choque semântico, por saber que os “sem-terra” têm sua terra, mas não a têm. Choque de negatividades, por ver confirmado o estereótipo que tenho em relação aos possuidores do poder, aos agentes do Estado, ao Poder Judiciário (que da justiça está longe) e por ouvir de um homem a narração da tortura cometida contra a sua família – que o faz ter que baixar a cabeça enquanto investiga a memória, num claro gesto de vergonha.

Mas não tive como evitar reflexões e uma fala dura (e breve) sobre o Direito quando me foi dada a oportunidade. Não tive como evitar levar àquelas pessoas a descrição de uma realidade que elas em parte já conheciam e sentiam: critiquei o Direito, os juristas e meus próprios colegas de faculdade, porque, ao contrário do que a comunidade imaginava, não era preciso ter feito aquela visita para ser impiedosamente criticado e pormenorizado naquele ambiente de fazer “adEvogados”: bastava defender a causa do movimento. E, nas suas falas observadoras, desde o comportamento do capanga mais asqueroso, até a decisão hiperabstrata do Supremo Tribunal Federal que frustrou a conquista de um direito elementar à condição daquelas pessoas, só vi mais e mais vezes repetidos os pressupostos discursivos dos quais os mundos do jurídico e do político (um encostado no outro, num “sarro” eterno) se valem para justificar atitudes que entendo injustificáveis, humanizar comportamentos desumanizantes e reafirmar relações de forças e poder que servirão aos interesses de alguns (que, garanto, não serão os mais fracos). Obrigado, Warat, por dissertar sobre o “senso comum teórico dos juristas” e possibilitar a feitura de um colchão onde posso fazer repousarem, em travesseiro de plumas, todos os argumentos jurídico-científicos de fórmulas prontas, toda a violência gratuita contra as minorias e toda a política dissimulada sobre as demandas coletivas. Obrigado às minhas recentes experiências universitárias por me fazerem olhar o Vade Mecum com uma sobrancelha levantada e “conquistar” o desprezo de muita gente. Hoje vi que (1) o negócio familiar, dada a devida oportunidade, funciona e proporciona melhoria das condições sociais, (2) a concentração de terras no Brasil é absurda e injusta (gastei mais tempo e combustível me deslocando dentro de uma única propriedade do que entre cidades!), (3) o Estado é frouxo e suas instituições manipuladas na defesa de interesses agrários, (4) a busca pelo poder e pelos interesses patrimonialistas gera situações de absurdos abusos e violações dos direitos mais básicos da pessoa humana, (5) o problema da miséria urbana em decorrência do êxodo rural é real, corrente e grave, e, por fim, (6) apesar de toda a frustração, do medo e da incerteza, é possível ser feliz.Prefiro não revelar quais trabalhos venho desempenhando e onde eles são desempenhados; também não faço referência a nomes (que não são poucos): me permito promover essa autocensura cautelosa que nada mais é do que o reflexo de uma censura social hegemônica. Só gostaria de fazer uma última associação entre uma imagem e uma ideia, uma contraposição. Apesar de tantas coisas grandes que vi (hectares não faltaram), foi um detalhe que me chamou atenção: as mãos e pés ressecados, rachados e, provavelmente, sem sensibilidade dos trabalhadores. Isso me faz conectar o aspecto sofrido dos seus membros aos trabalhos de sobrevivência despendidos todos os dias. Agora penso no “sem-terra vagabundo”. Penso de novo nas mãos e pés. Só posso associar essas duas coisas sob a ótica do desconhecimento e do preconceito alheios, que é o que busco combater nos meus discretos pensamentos e gestos.Um fim de tarde de muitos beijos, abraços e promessas de retorno nos foi reservado. “Quando conseguirmos NOSSA terra de novo, vamos fazer uma festa de três dias. Vocês estão todos convidados!”. Dei uma última olhada no retrovisor, buzinei e tentei projetar quando voltaríamos àquela realidade. “Àquela” sim, porque agora voltávamos todos para a nossa capital, nossa realidade. Mas criamos uma ponte espiritual. Olhando, agora, da janela do meu apartamento, a aurora de mais um pôr-do-sol, não pude deixar de pensar nos meus mais novos amigos que estão para além daqueles edifícios que se projetam no horizonte e me impedem de ver o restinho de sol brilhando. Espero que, lá, os amigos tenham uma vista proveitosa e consigam enxergar o que, aqui, as pessoas ao redor teimam em tentar me impedir de ver.

João Pessoa, 26 de setembro de 2010.

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