Entrevista com o filósofo Miroslav Milovic

Responsável – Will Goya

Miroslav Milovic nasceu na Iugoslávia, em 1955. Concluiu o doutorado em filosofia na Universidade de Frankfurt em 1987 e o doutorado do Estado na Universidade Sorbonne, Paris IV, em 1990. Foi professor da filosofia na Iugoslávia, Turquia, Espanha e Japão, e agora no Brasil, onde leciona na Universidade de Brasília, como professor Titular.

Além de dezenas de publicações entre artigos e capítulos de livros, é autor de:

a) Comunidade da Diferença. 1. ed. Rio de Janeiro, Ijuí: Relume Dumará, UNIJUI, 2004. v. 1. 142 p. Traduzido para várias línguas.

b) Critica e Autoridad. Granada: Centro Mediteraneo, 1997 (Livro editado).

c) Ética e discurso. Belgrado: Sociedade Filosófica da Sérvia, 1992. v. 1. 200 p.

d) Filosofia da Comunicação. Brasilia: Plano, 2002. v. 1. 310 p.

e) O argumento reflexivo. Belgrado: Sociedade Filosófica da Sérvia, 1989. v. 1. 200 p.

f) Sociedade e Diferença. Brasilia: Casa das Musas, 2005. v. 1. 294 p.

ENTREVISTA:

Professor Milovic, qual a questão filosófica que ultimamente mais lhe tem chamado atenção, e por que?

Miroslav Milovic – Estou agora ministrando um curso da pós-graduação no direito e na filosofia sobre a biopolitica. É uma continuação dos cursos anteriores onde tentamos de pensar a relação histórica entre filosofia e política, entre metafisica e política. Assim chegamos até um explícito otimismo moderno que afirma a realização política da nossa liberdade. É o projeto explícito da filosofia hegeliana. Tentamos confrontar essa perspectiva com os autores diferentes como Marx, Arendt, Habermas para ver se ainda da para defender as perspectivas políticas da Modernidade. E chegamos até as conseqüências dramáticas. Onde a Modernidade afirma a nossa realização política a gente encontra fortes sinais da despolitização. Nós não somos sujeitos políticos modernos, mas expectadores marginalizados da política. A biopolítica questiona as conseqüências dessa despolitização. Com autores como Nietzsche, Foucault, Agamben e Derrida a gente tenta entender e confrontar a política moderna.

Professor, fale-nos um pouco sobre o fenômeno da identidade nos tempos modernos, em sua obra “Comunidade da Diferença”.

Nesse livro tentei questionar a Modernidade não nos contextos políticos, como mencionei acima, mas discutindo as perspectivas abrangentes da racionalidade. Assim, a gente chega até os próprios fundamentos da Modernidade, até a sua própria rigidez tratada como a Identidade. Modernidade é uma forma da Identidade, da nivelação, mediocrização que apaga com as possibilidades da Diferença. A cultura global, como a conseqüência da Modernidade é um exemplo disso. Estamos na sombra hegeliana, vivendo o fim da historia, onde a nossa vida só tem sentido como a reprodução do passado. Futuro do capitalismo é o passado da historia. É o mundo sem futuro. Precisamos repensar isso, nos confrontar para que seja possível nossa autenticidade.

Senhor Miroslav, poderia nos dar um exemplo prático dessa “identidade na modernidade”?

É um bom exercício para não terminar só no vazio acadêmico. Podemos olhar a crise atual no mundo. Como por exemplo, chega rápido muito dinheiro para salvar bancos e indústria, que nunca chegou para salvar as pessoas e superar a pobreza no mundo. Vê-se o limite do mercado capitalista, mas se chama o Estado para salvá-lo. Quer dizer, as respostas ficam dentro do sistema. Não aparece nenhuma abertura para sociedade, para o povo. É o exemplo dessa Identidade que mencionei.

Gostaria que explicasse um pouco das suas especialidades, a hermenêutica e a dialética.

O meu recado pedagógico, para melhor me exprimir, é a transparência filosófica. A filosofia não pode criar confusão, mas para nos dizer o que é o mundo concreto, quem somos nós. Obviamente precisamos entender muito, ouvir outras culturas e respostas para saber. As palavras hermenêutica e dialética aparecem neste caminho. Hermenêutica fala sobre as condições da nossa compreensão do mundo e a dialética sobre os pressupostos comunicativos do nosso conhecimento. Pelo menos é a significação inicial que essas palavras têm no contexto da filosofia grega. Mas essa significação mudou. Hermenêutica ficou talvez mais presente nas discussões atuais do que a dialética. Só que hoje ela não se refere mais à compreensão das obras referenciais, como por exemplo a Bíblia, mas a autocomprensão do ser humano. Essa compreensão pode muito bem incluir a dialética no sentido da elaboração, como pensava Sartre, a nossa atividade prática no mundo.

Sobre esse ponto há outra questão: quais as diferenças entre “hermenêutica” e “filosofia da linguagem”? Estas disciplinas costumam confundir muitos interessados…

Hermenêutica não é necessariamente ligada à linguagem. Heidegger é um exemplo disso. O que é importante é o que a gente articula com essas palavras.

A diferença ontológica, o projeto principal dele, fala sobre a nossa autenticidade no mundo. O ser não existe, como pensava a historia da filosofia. Ele é talvez só a possibilidade, a possibilidade da nossa autenticidade. A questão agora é se essa abertura para o autêntico pode ser um projeto hermenêutico ou lingüístico. Heidegger nos deixou com duas alternativas. Seria interessante comparar essa perspectiva com as duas perspectivas da filosofia da linguagem inauguradas por Wittgenstein do Tractatus e das Investigações. É possível pensar a questão sobre o ser nos contextos semânticos e pragmáticos da linguagem. Uma resposta relevante está em Habermas. Outra que questiona a linguagem é de Derrida.

Senhor Miroslav, que observações ou sugestões o senhor poderia fazer ao nosso site (www.filosofia.com.br), o maior site de filosofia do país, como um filósofo hermeneuta?

Parabéns por ter essa curiosidade filosófica, essa abertura tão importante hoje.

Entendo a filosofia como curiosidade que nunca pára cansada, satisfeita, entregando se ao dado, positivo… Nela pulsiona a vida. E se articulam as possibilidades da resistência prática. Afirmar, divulgar a filosofia, mostrar a democratização da razão são os projetos importantes. Assim a filosofia se mostra do povo e não dos especialistas no mercado.Entrevista com o filósofo Miroslav Milovic

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3 pensamentos sobre “Entrevista com o filósofo Miroslav Milovic

  1. Tem um trecho repetido na entrevista. Aliás, o trecho que repete é o que achei mais marcante. Colo abaixo. Abraço!

    É um bom exercício para não terminar só no vazio acadêmico. Podemos olhar a crise atual no mundo. Como por exemplo, chega rápido muito dinheiro para salvar bancos e indústria, que nunca chegou para salvar as pessoas e superar a pobreza no mundo. Vê-se o limite do mercado capitalista, mas se chama o Estado para salvá-lo. Quer dizer, as respostas ficam dentro do sistema. Não aparece nenhuma abertura para sociedade, para o povo. É o exemplo dessa Identidade que mencionei.

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