Duas formas de banalizar a violência: “Chapola e Pedro Paulo”, por Ronaldo Monte

Chapola é “de menor”, tem dezessete anos. O que não o impede de ser conhecido como “o terror do Renascer”, bairro da periferia de João Pessoa. Chapola foi preso sob a acusação de chefiar uma gang responsável por vários assassinatos e assaltos ligados ao tráfico de drogas da Grande João Pessoa.

A prisão de Chapola teria passado desapercebida pelas páginas policiais se a polícia não tivesse encontrado em seu celular um vídeo em que ele botava um cigarro de maconha na boca de uma criança de três anos.

Pedro Paulo Dias não tem apelido. Mas atendia prontamente quando o chamavam de governador. Nada mais normal, pois foi governador do Amapá duas vezes. Pedro Paulo foi preso pela Polícia Federal por chefiar uma gang que desviava dinheiro público, principalmente do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Com ele foram presas mais treze pessoas. Dentre elas encontra-se Waldez Góes, ex-governador e candidato a senador pelo Amapá e o presidente do Tribunal de Contas do Estado, José Júlio de Miranda Coelho. Como era um negócio de família, também foram presas a namorada do governador e a mulher do ex-governador. Tudo gente fina.

Existe um elo entre as gangs de Chapola e Pedro Paulo. O dinheiro do Fundeb desviado pela turma do governador era para pagar professores e comprar merenda escolar e material de manutenção para creches e colégios do ensino médio.

Quer dizer que, se o dinheiro desviado no Amapá e em vários estados do País fosse devidamente aplicado, o Chapola certamente estaria terminando o ensino médio e a criança de três anos estaria numa creche decente, longe do assédio perversamente precoce dos traficantes.

Posso antever que, dentro de pouco tempo, Chapola vai ser encontrado morto num boteco do Renascer ou num matagal ali por perto. É possível também que a criança a quem ele apresentou o primeiro baseado se transforme no próximo “terror do Renascer”, repetindo o manjado círculo da morte.

Mas o que mais me dá raiva é saber que, daqui a poucos dias, a gang do Pedro Paulo vai voltar para suas mansões em seus carros importados e continuar com a imunda produção em escala industrial de novos chapolas.

Dói mais ainda saber que é nas comunidades Renascer plantadas na periferia das grandes cidades que moram os eleitores de criminosos como Pedro Paulo e Waldez Góes.

Postado por Ronaldo Monte

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Um pensamento sobre “Duas formas de banalizar a violência: “Chapola e Pedro Paulo”, por Ronaldo Monte

  1. Visão determinista e coitadista demais Se a propensão à violência fosse vinculada à falta de acesso à educação, como o texto dá a entender, então pessoas de classe média jamais cometeriam crimes hediondos – mas, como sabemos, não é bem assim.

    Além do mais, se todos os indivíduos em situação de miséria tivessem um comportamento análogo ao do “Chapola”, tendo em vista que existem, no nosso país, pelo menos 50 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza, o Brasil há muito estaria mergulhado num estado de sítio, beirando ao colapso. Ele é a exceção, não a regra. Pobreza não implica em criminalidade – é um pensamento reducionista e flagrantemente preconceituso.

    SE Chapola tivesse recebido educação apropriada, que garantias temos que ele seria diferente at all? Os jovens que atearam fogo num índio numa parada de înibus anos atrás não eram cosmopolitas das Classes A ou B, por acaso?

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