Doutores com Q.I.

Mais uma ótima contribuição enviada por meu querido amigo Maurício
Nas seleções para pós-graduação, o “Quem Indicou” pode valer mais que
o mérito acadêmico dos candidatos. É possível acabar com esse
favoritismo?

Ana Aranha e Marco Bahé

Ninguém duvida do mérito acadêmico dos alunos aprovados nos
vestibulares das melhores universidades do país. A disputa pelas vagas
é tão concorrida que a aprovação exige meses de estudos e preparação
exclusiva. A maior prova disso foi a comoção em torno do vazamento do
Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que pretende substituir os
vestibulares como principal forma de acesso às universidades. Devido
ao furto de dois cadernos de questões, o exame foi cancelado e 4
milhões de alunos esperaram dois meses para prestá-lo. Quem conseguir
passar pelo filtro do Enem, entrar na universidade e se formar vai ter
provavelmente de fazer um esforço diferente se quiser avançar para a
pós-graduação. Em vez de virar a noite revisando o conteúdo de
matérias para provas, vai ter de bajular um orientador, pedir cartas
de recomendação, submeter-se a entrevistas cheias de critérios
subjetivos para conseguir entrar num curso de mestrado.

Por princípio, uma seleção para a pós-graduação não pode ser como o
vestibular. Exige conhecimentos específicos e capacidades de
argumentação e abstração que uma prova de múltipla escolha não é capaz
de captar. Por isso, cada curso de pós-graduação tem autonomia para
selecionar seus alunos. O problema é que alguns abusam dessa
prerrogativa e deixam a decisão na mão dos poucos profissionais que
compõem a banca. Com a concentração de poder, começam os problemas.
Nos últimos anos, candidatos entraram com ações na Justiça para
questionar os métodos de seleção de cursos de pós-graduação das
melhores universidades do país. As ações denunciam favorecimento de
candidatos próximos a professores e sugerem que, em algumas das mais
qualificadas bancas de seleção do país, o famoso Q.I. (“Quem Indicou”)
tem um peso maior do que o potencial acadêmico na escolha dos futuros
mestres e doutores.

Essa é a suspeita levantada pela candidata ao mestrado em política
social na Universidade de Brasília (UnB) Arryanne Vieira Queiroz.
Formada em Direito e delegada da Polícia Federal, Arryanne, em
novembro, entrou com um mandado de segurança na Justiça Federal e um
pedido de ação civil no Ministério Público Federal em que pede a
suspensão do processo seletivo na UnB. Seu principal argumento é a
falta de transparência. Quando soube que não havia sido aprovada na
prova de conhecimentos específicos, Arryanne procurou saber sua nota
com o objetivo de pedir a revisão de algumas questões. A UnB respondeu
que as notas não seriam divulgadas. “Não faz sentido. Como posso
recorrer sem saber se tirei 5 ou 0?”, diz Arryanne. “Não tinha
elementos para argumentar. Fiz um recurso no escuro.”

O recurso apresentado por Arryanne foi recusado. Ao final do processo,
ela teve outra surpresa. Descobriu que um dos dez candidatos aprovados
é genro da coordenadora do programa de pós-graduação, Potyara Pereira.
Com essa informação, ela decidiu entrar na Justiça. “Ele pode ter
conquistado essa vaga por mérito próprio. Mas, como o processo é
obscuro, fica a suspeita. Além de não ter direito a defesa, os
candidatos não podem fiscalizar seus concorrentes. ” A coordenadora da
banca da seleção, Marlene Teixeira Rodrigues, diz que a professora
Potyara Pereira não participou da escolha dos alunos para o mestrado
em política social da UnB devido a sua relação de parentesco com um
dos candidatos. “A professora Potyara pediu para ser mantida distante
do processo”, diz Marlene Rodrigues. Ela afirma também que a
divulgação das notas só é feita ao final do processo de seleção por
causa de uma regra estabelecida no edital do concurso.

Não é a primeira vez que a UnB sofre acusações de favorecimento na
seleção para a pós-graduação. Em 2005, o MPF moveu diversas ações
contra a universidade devido à falta de clareza e objetivo nos
critérios de escolha dos alunos de mestrado e doutorado. Segundo o
procurador da República Carlos Henrique Martins, uma das denúncias foi
motivada por uma pergunta feita pela banca do mestrado para
antropologia. “Um professor queria saber como o candidato iria se
manter financeiramente ao longo do curso. É um critério que não tem
relação com o mérito acadêmico”, diz Martins.

Em 2005, a UnB firmou um acordo com o MPF e se comprometeu a mudar
seus procedimentos. A promessa, aparentemente, foi esquecida. No
edital para o mestrado em antropologia, ainda consta a exigência de
uma “declaração de tempo e meios financeiros de que (o candidato)
dispõe para cursar o mestrado”. José Pimenta, coordenador da
pós-graduação do curso, diz que “ninguém vai deixar de entrar devido
às condições financeiras” . Por que, então, a seleção ainda faz a
pergunta? “Só para ter mais elementos sobre os candidatos”, afirma
Pimenta.

Além da UnB, a pós-graduação da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE) também foi alvo de ações do MPF. Muitos dos processos de
seleção da UFPE não tornavam públicos os critérios que seriam levados
em conta pelas bancas. Entre os alunos da universidade, são muitos os
relatos de favorecimento acobertados pela falta de transparência.
Todos os depoimentos colhidos por ÉPOCA foram feitos sob a condição de
anonimato. Os alunos têm medo de sofrer perseguição. A principal
queixa é que seria preciso se aproximar de professores influentes para
conseguir uma vaga. Segundo alunos do Departamento de Geografia, a
pós-graduação seria “dominada” por grupos de professores que decidem,
sem prestar contas, quem entra e quem sai. “Eu tive de passar um ano
como aluna ouvinte até que um professor me ‘adotasse’. Eles só querem
orientar quem já conhecem”, diz uma mestranda. “Se você vier de
faculdade privada, então, há muito preconceito. Não é raro alunos
tentarem mestrado em outros Estados, pois aqui há famílias dominando o
departamento. ” Segundo um candidato ao mestrado em Direito, mesmo com
nota 8 na prova específica e 9 na de língua estrangeira, ele foi
eliminado da disputa depois de dez minutos de entrevista. “Outros
candidatos com pontuação muito inferior a minha nas fases anteriores
foram aprovados”, diz.

Depois da ação movida pelo MPF, a UFPE elaborou parâmetros para todos
os cursos. Passou também a exigir a publicação dos critérios em
espaços de acesso público – como a internet. Entre as principais
mudanças está o fim da exigência das cartas de recomendação. As cartas
davam margem para que alguns candidatos fossem beneficiados só por
causa do prestígio de quem os recomendava. As entrevistas também
perderam peso. Elas não podem mais classificar nem eliminar candidatos.

Segundo o diretor de Pós-Graduação da UFPE, Fernando Machado, os
problemas já tinham sido detectados antes da ação do MPF. “A ação
serviu para acelerar um processo que acontecia lentamente”, afirma.
“Cerca de 80% do editais lançados neste semestre já seguem os novos
parâmetros.” Muitos professores da UFPE criticaram, porém, as mudanças
nos processos de seleção. Eles argumentam que o acordo com o MPF feriu
a autonomia universitária.

“Sendo uma universidade pública, a UFPE é obrigada a seguir os
princípios da impessoalidade, legalidade e publicidade. Assim como o
mérito como critério de acesso ao ensino superior”, afirma o
procurador da República Antonio Carlos Barreto Campelo.

As medidas tomadas pelo MPF para tornar mais transparentes os
processos de seleção para a pós-graduação são importantes para tornar
o sistema menos suscetível a injustiças. Mas nem elas são capazes de
eliminar totalmente a subjetividade na escolha dos candidatos. “Temos
parâmetros claros, mas alguma margem de subjetividade sempre fica”,
diz Romualdo Portela de Oliveira, coordenador da pós- -graduação em
educação da Universidade de São Paulo (USP). A principal brecha para a
subjetividade se abre quando o número de aprovados excede o número de
vagas. Como há um número limitado de vagas por orientador, e os
candidatos apontam seus orientadores no início do processo, a seleção
final pode ficar a cargo do professor que está com excesso de alunos.
Nesse caso, um candidato aprovado, com condições de cursar a
pós-graduação, pode ficar de fora da seleção só porque o orientador
preferiu trabalhar com outros alunos – talvez por uma relação
anterior. “É uma discussão controversa” , afirma Portela. “Eticamente,
é razoável que orientador e orientado não discutam antes, já que aí se
estabelece uma relação privilegiada. Mas também é natural que alguns
sejam próximos, devido aos projetos de iniciação científica na
graduação.”

O uso da entrevista como um dos critérios de seleção também costuma
gerar controvérsias. Há relatos de que concorrentes recebem tratamento
desigual. Uma candidata a mestrado na Universidade Estadual do Rio de
Janeiro (Uerj), que pede que seu nome e curso não sejam identificados,
diz que foi prejudicada pelo entrevistador. Em 2006, depois de passar
na prova de inglês e na de conhecimentos específicos, ela chegou à
entrevista em décimo lugar numa seleção em que havia 20 vagas. “A
entrevista começou, e percebi que o entrevistador estava empenhado em
prejudicar meu discurso. Ele era agressivo e intimidador, interrompia
minha fala para dizer: ‘Não é isso que eu quero saber’.” Segundo ela,
havia outros professores na banca, mas só ele falou. “Foi um
comportamento acintoso. Ficou claro que ele queria me prejudicar.”
Depois da entrevista, a aluna caiu para a 21ª posição e ficou de fora
da seleção.

Para tentar evitar favorecimento ou perseguição, a recomendação do
Conselho Nacional de Educação (CNE) é que a entrevista não seja
eliminatória e sirva apenas para somar pontos na classificação dos
concorrentes. Mesmo assim, ela continuaria sendo estratégica, pois a
distribuição de bolsas entre os aprovados costuma ser de acordo com a
classificação. “O processo deve ter critérios claros e oferecer
condições de igualdade”, afirma Paulo Barone, presidente da Câmara de
Ensino Superior do CNE. “Mas não dá para exigir objetividade total.
Avaliação de mérito é sempre difícil de medir.”

Como a objetividade total é impossível, a Justiça costuma dar razão às
universidades nos processos movidos pelos alunos contrariados. Apenas
os casos mais gritantes chegam ao CNE, que pode fazer recomendações
aos cursos sobre os critérios de seleção. Há alguns anos, algumas
universidades federais exigiam que o candidato ao curso de
pós-graduação apresentasse uma empresa patrocinadora de seu projeto
para conseguir uma vaga no mestrado profissional. Trata-se de uma
modalidade de mestrado que está crescendo no país, na qual os alunos
desenvolvem projetos voltados para o mercado. Segundo Barone, a
exigência de uma “empresa madrinha” fere o princípio de igualdade de
condições de acesso. Por esse motivo, as universidades começaram a
perder ações na Justiça, e o CNE passou a desaconselhar esse tipo de
critério de seleção.

Não há hoje no Brasil um órgão regulador dos processos de seleção da
pós-graduação. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes), órgão ligado ao Ministério da Educação, faz o
controle da qualidade dos cursos. Mas não dá diretrizes para a seleção
nem avalia os processos. “Esses questionamentos só estão acontecendo
porque a demanda pela pós teve crescimento chinês”, afirma Jorge
Guimarães, presidente da Capes. Ele tem razão. Na última década, as
matrículas no mestrado e doutorado dobraram. O aumento da procura é
reflexo da crescente escolarização da população e da demanda por mão
de obra qualificada do mercado. Com mais gente competindo pelas vagas,
porém, as universidades estão diante do desafio de aumentar a
transparência da seleção para a pós-graduação para acabar com os
feudos acadêmicos em um país que pede mais mérito e qualificação.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s